O Nada Acadêmico (ou: Tamanho é Documento)
Fico me perguntando: qual o propósito de se fazer um certo trabalho com 25 páginas para uma disciplina quando se poderia dizer tudo em 5 ou menos?
Sim, há o impacto visual: 25 páginas encadernadas, com capa, folha de rosto, duas folhas de índice e mais duas de referências lá no final é algo que realmente parece ter algum conteúdo. Mas se você espremer, torcer, esmiuçar ou seja lá por qual processo se queira extrair o sumo do trabalho, não obteria mais do que as 5 páginas já citadas.
Mas, claro, seria um ato vergonhoso entregar um trabalho com menos de uma dezena de folhas. “Onde você pensa que está?”, perguntariam os docentes balançando aquele maço insignificante de folhas diante da fuça do aluno. “Isso aqui é sério, rapaz, quero pelo menos 20 páginas!” E eis que daí surge o mais puro e absoluto Nada, enrolação, encheção de lingüiça, lero-lero.
Gráficos fora de contexto extraídos diretamente da pesquisa de imagens do Google, grandes imagens e logotipos para ganhar linhas, espaçamento de 0,2 cm entre parágrafos e maior ainda entre seções. Tabelas, tabelas, notas de rodapé sobre o óbvio, referências quaisquer, tabelas, margens ligeira e quase que imperceptivelmente maiores do que o usual, mas grandes o suficiente para ganhar uma página a mais, mesmo que ela contenha apenas 3 linhas. Ah, e mais tabelas.
Tudo isso emoldurado pelas normas grotescas da ABNT ou por padrões similares (e menos feios). Tem-se, então, como resultado de tal laboriosa confecção artística, um verdadeiro trabalho acadêmico, com 5 páginas de conteúdo e 20 de enrolação, o qual é recebido com entusiasmo pelo professor, que provavelmente irá apenas folheá-lo em busca de receitas de bolo ou ofensas e, caso não as encontre, lhe dará uma nota 8,0.
E aí eu volto a me perguntar: pra quê essa hipocrisia toda? Será que fere o orgulho de certos professores ver suas disciplinas semestrais reduzidas a 4 ou 5 páginas? Será que é por isso que pedem por 20, 30, 60 folhas de papel? Ou será que é apenas para usar a palavra “trabalho” em seu sentido literal e fazer os alunos sofrerem um pouquinho para serem aprovados?
Pois, vocês sabem, não é tão fácil enrolar. Chega um momento onde é impossível continuar sem fazer um certo esforço físico, sem lutar contra as palavras que resumem muitas coisas em seus significados e sem buscar arduamente por aquelas que sejam mais vagas, mais maleáveis, sem buscar por quantificadores, conectivos, hipérboles sem propósito, digressões recursivas, analogias absurdas, obviedades, dezenas de sinônimos e clichês.
Tamanho, para grande parte das disciplinas, é documento. O conteúdo cai para o segundo plano e a relevância dos assuntos, em geral, para o terceiro.
A aparência, até mesmo nesse caso, parece valer mais do que todo o resto. E não importa se tanto alunos quanto os professores estão cagando para tudo isso: é assim que deve ser.
Hehehe, muito bom, rola muito disso mesmo. Muitos acadêmicos querem ver volume, quando o ideal seriam poucas páginas.
Marcus Oliveira
25/11/2007 em 02:03
oh, que ótimo texto! bom pacas. e é nada mais do que a verdade. Tabelas são no mínimo um terço de qualquer trabalho acadêmico que “se preze”.
João Barreto
25/11/2007 em 17:51
Me perguntei exatamente isso esses dias, aprendemos a enrolar na escola e faculdade para depois aprender a resumir e ser objetivo no mercado de trabalho.
Quando joguei a idéia para cima, muitas pessoas foram contrárias, discutiram sobre o ensino de argumentação, aprofundar idéias, trabalhos de doutorado e mestrado precisam dessa especificação em mil páginas e etc.. Ou seja, nos prepararem desde a escola para um doutorado, não para o mercado.
Mas não me convenceram! Ao meu ver, a sociedade nos força a buscar tempo para leitura e informação, quando mais objetivo, sucinto e breve for o texto, melhor.
Eles também não se convenceram. Talvez se eu estivesse com a navalha na mão, sairiam bem convencidos. hehehehehe…
Diego Dotta
26/11/2007 em 10:26
Pois é, Diego, digamos que é mais fácil ter razão quando se empunha um instrumento cortante hehehe.
Mas essa explicação sobre a preparação para um doutorado, ironicamente, me parece pura enrolação.
O fato é que falar mais do que o necessário, com a única finalidade de produzir um texto mais longo, é algo que não tem lá uma explicação muito racional. Prefiro pensar que seja um capricho daqueles que pedem por tais trabalhos a ser algum tipo de preparação — pois se realmente for, é melhor mudarmos logo este método.
B.Cardoso
26/11/2007 em 10:45
Tenho alguns professores que nadam contra a corrente. Teve um que pediu um trabalho com no máximo 5 páginas. (E os meus colegas, acostumados a enrolar e aumentar tudo com palavras vazias de sentido, quase entraram em pânico
) Até a monografia de final de curso tem tamanho limitado, para evitar exageros verborrágicos
Gabriela
03/12/2007 em 12:13