Navalha Infame

Literatura, artigos e opinião sem muito requinte.

O melhor governo é o que não governa

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Li, em algum dia da semana passada, o Desobediência Civil (aqui em PDF) e o livro já se inicia com a frase: “o melhor governo é aquele que governa menos”. E não estamos falando aqui de produtividade (senão até poderíamos nos orgulhar dos políticos que temos), mas de intervenção.

O melhor governo é aquele que intervém menos, é o que limita menos, é o que dita menos leis e obrigações. O melhor governo, portanto, “é aquele que absolutamente não governa”.

E é isso mesmo.

Há uma passagem bastante interessante que ilustra bem essa idéia (com grifos meus):

(…) A lei jamais tornou os homens mais justos, e, por meio de seu respeito por ela, mesmo os mais bem-intencionados, transformam-se diariamente em agentes da injustiça. Um resultado comum e natural do indevido respeito pela lei é que se pode ver uma fila de soldados — coronel, capitão, cabo, soldados rasos, etc — marchando em direção à guerra em ordem admirável através de morros e vales, contra as suas vontades, ah!, contra as suas consciências e seu bom senso, o que torna esta marcha bastante difícil, na verdade, e produz uma palpitação no coração. Eles não têm dúvida alguma de que estão envolvidos numa atividade condenável, pois todos têm inclinações pacíficas. Então, o que são eles? Homens ou pequenos fortes e paióis a serviço de algum homem inescrupuloso no poder?(…)

A grande maioria dos homens serve ao Estado desse modo, não como homens propriamente, mas como máquinas, com seus corpos. São o exército permanente, as milícias, os carcereiros, os policiais, os membros da força civil, etc. Na maioria dos casos não há um livre exercício seja do discernimento ou do senso moral, eles simplesmente se colocam ao nível da árvore, da terra e das pedras. E talvez se possam fabricar homens de madeira que sirvam igualmente a tal propósito. Tais homens não merecem respeito maior que um espantalho ou um monte de lama. O valor que possuem é o mesmo dos cavalos e dos cães.

Há uma constatação curiosa num determinado ponto do texto, que diz que um homem que se recusa a pagar uma determinada quantia em impostos há de ser preso e passar um tempo indeterminável no cárcere. Agora, um homem que rouba dos cofres do Estado uma quantia dez vezes maior que o imposto em questão, este terá uma punição muito mais leve.

Ou seja, o não reconhecimento do Estado como entidade protetora ou soberana do indivíduo é muito mais danosa a ele do que qualquer outra afronta que se possa fazer. O indivíduo que não se curva e que anseia ser livre das limitações a ele impostas em prol de serviços ou posturas dos quais não usufrui ou discorda, este é punido com severidade. O Estado, megalomaníaco por natureza, não aceita aqueles que querem viver fora dele.

Então, se você se enfiar no meio do mato, sozinho, sem depender de absolutamente nada que o Estado possa lhe oferecer/impor, vivendo única e exclusivamente de suas próprias habilidades e instinto, distante da sociedade e de qualquer instituição, cuidado: você provavelmente estará infringindo um punhado de leis absurdas e irá, cedo ou tarde, ser caçado por alguns dos homens-paióis já citados.

Pois o Estado, como o conhecemos, não existe para servir à população, mas para moldá-la e contê-la de acordo com interesses de uma minoria — os ditos “homens inescrupulosos” e seus correlatos. E em nome da pirâmide social, da lei e da ordem, cabe ao cidadão comum dar a cara à tapa… e produzir bastante, claro.

Written by B.Cardoso

03/11/2007 às 20:29

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