Curta de Quinta — Di Cavalcanti Di Glauber
O curta desta quinta-feira tem vários títulos possíveis: muito embora ele seja dito por Glauber Rocha logo nos primeiros segundos da película, por conta do tamanho exagerado tornou-se comum chamá-lo de Di Cavalcanti Di Glauber, Di Glauber ou simplesmente Di.
Di Cavalcanti Di Glauber
Deixe carregando, esse curta tem história!
Vamos lá: o nome completo desse filme nada mais é do que a primeira estrofe do famoso poema Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos — que está reproduzido no fim deste post. Glauber apenas subtrai a indagação inicial, muda o tempo do verbo “assistir” e refere-se à pantera de outro modo (intencionalmente ou não), dando a este curta de pouco mais de 15 minutos um nome gigantesco.
Trata-se de um mini-documentário sobre a morte de Di Cavalcanti, em 26 de outubro de 1976 (vejam só, 31 anos amanhã!). O filme, ganhador do Prêmio Especial do Juri no Festival de Cannes de 1977, é também uma homenagem ao artista e é narrado pelo próprio Glauber que começa lendo notícias de jornal sobre a confusão que sua filmagem causou.
Aliás, a exibição deste curta está proibida no Brasil desde 1979, quando a filha adotiva do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, entrou na justiça alegando que a filmagem era um desrespeito à família e ao morto.
Quando Di morreu, eu apenas improvisei em cima de fatos. Como eu estava duro, pedi a vários colegas cineastas pedaços de filmes virgens, chegando a juntar 800 metros de colorido. Peguei também uma câmara emprestada do Nelson Pereira dos Santos. (…) Fui ao velório, no Museu de Arte Moderna e ao enterro, no São João Batista. Dirigi o fotógrafo Mário Carneiro na tomada das cenas. Aí já estava decidido a fazer um filme sobre a morte de Di. Uma homenagem de amigo para amigo. As poucas pessoas que estavam lá ficaram chocadíssimas, claro. Diziam que eu estava tumultuando o enterro, estava profanado um ato católico. Não é nada disso. Meu filme é um manifesto contra a morte. Da morte nasce a vida. Di era um homem alegre, um homem que, com toda a certeza, também gostava de enterros. E eu quis, além de prestar-lhe uma homenagem, contestar os princípios fundamentais da lógica.
E, num texto distribuído na sessão do filme, em 11 de março de 1977, Glauber complementa:
Filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição. A Festa, o Quarup — a ressurreição que transcende a burocracia do cemitério. Por que enterrar as pessoas com lágrimas e flores comerciais? (…)
Chocado pela tristeza de um ato que deveria ser festivo em todos os casos (e sobretudo no caso de um gênio popular como Emiliano di Cavalcanti) projetei o Ritual Alternativo; Meu Funeral Poético, como Di gostaria que fosse, lui…. o símbolo da Vida…
O filme é guiado, também, pela Balada de Di Cavalcanti, poesia de Vinicius de Moraes (reproduzida abaixo), e uma série de músicas como Umbabarauma, de Jorge Ben.
Eu estou postando este filme aqui por três razões: 1) é genial e, assim sendo, não poderia deixar de ser mencionado aqui; 2) por ter sua exibição proibida, muita gente nunca nem ouviu falar, o que é uma pena; e 3) foi o primeiro filme do Glauber Rocha que eu vi, projetado diretamente na parede do porão de uma casa cedida pela Sociedade Italiana durante um evento cultural na cidade onde eu morava, e que me fez ir atrás de outros filmes do Glauber e do Cinema Novo.
Espero que gostem e divulguem.
Abaixo, os poemas:
Versos Íntimos
Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.Se a alguém cauda ainda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!Augusto dos Anjos, Pau d’Arco, 1901.
Balada de Di Cavalcanti
Nos sessenta e cinco anos do pintor
mais jovem do BrasilCarioca Di Cavalcanti
É com a maior emoção
Que este também carioca
Te traz esta saudação.
É de todo o coração
Poeta Di Cavalcanti
Que este também poetante
Te faz esta sagração.
Amigo Di Cavalcanti
Amigo de muito instante
De alegria e de aflição
Nos teus treze lustros idos
Cinco foram bem vividos
Bem vividos e bebidos
Na companhia constante
Deste também teu irmão.
Quantos amigos já idos!
Quantos ainda partirão!
Mestre pintor Emiliano
Augusto Cavalcanti
De Albuquerque: ou melhor Di
Um ano segue a outro ano
Diz o vulgo por aí
E daí? se mais humano
Fica um homem (igual a ti!)
Mesmo entrando pelo cano?
Se pode dizer: vivi!?
Viveste, Di Cavalcanti
Foste amigo e foste amante
Não há outro igual a ti
Juntos bebemos champagne
Uísque, vinho, parati
Juntos rimos e choramos
No México e em Paris
Juntos tivemos e amamos
Mulheres daqui e dali
Maria… quantas Marias…
(Fiquei mesmo por aí.)
Que bom seria, Emiliano
Se Ovalle estivesse aqui!
Que bom seria se Noemia
Braço dado
(Vê minha mão como treme… )
Viesse abraçar-te, Di!
A uma eu diria: yes
À outra dirias: oui
E um porre tomaríamos
De Strega (lembras-te, Di?)Vinicius de Moraes.
Nunca mais chegamos no dia dos curtas. Uma pena.
Aqui em Londrina vai haver um tal de dia de animação, e aqui está o link dele http://www.abca.org.br/dia/filmes.html
Parece que o dia é nacional, então de uma olhada aí em Curitiba, talvez eles sejam exibidos aí tambem.
Vejo que está cada vez mais deixando a Catarse de lado em prol da Navalha.
Jimmy Jacques
Jimmy
26/10/2007 em 23:02
A Catarse volta, Jimmy. Era “surpresa”.
B.Cardoso
26/10/2007 em 23:27
[...] Tags: animação, cinema, curta, Dia Internacional da Animação, evento, filme Meu amigo Jimmy me avisou sobre o Dia Internacional da Animação, que ocorrerá amanhã, 28 de outubro, com a [...]
Dia Internacional da Animação — 28 de Outubro « Navalha Infame
27/10/2007 em 12:05
uou! genial, genial, genial e genial. o Glauber é O cara do cinema tupiniquim.
João Barreto
28/10/2007 em 19:15