Navalha Infame

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Les Saltimbanques

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Les Saltimbanques

Les Saltimbanques, Pablo Picasso. 1905

Terminei agora há pouco a leitura do livro Rimbaud e Jim Morrison — Os Poetas Rebeldes, de Wallace Fowlie, que traça um paralelo bem interessante entre os dois poetas e as lendas que os cercam.

E há, lá na página 83, um trecho bem interessante, que reproduzo parcialmente abaixo, que diz respeito à pintura acima feita por Pablo Picasso e os questionamentos que Rimbaud formula na abertura de Une Saison en Enfer: “Sou fera, vítima, gaulês? Sou castrado, ou leproso? Algum condenado, ou amoralista? Sou profeta, anjo, saltimbanco?”

Os saltimbancos de Picasso estão reunidos num grupo de cinco, e um sexto elemento aparece fora do grupo. Nenhum olha para o outro. Vê-se que são todos solitários, absortos em algum tipo de profunda indagação íntima (…). A suavidade dos corpos contrasta com a inquietação dos espíritos. É impossível dizer se acabaram de se apresentar ou se estão prestes a fazê-lo. Como as personagens de Pirandello, estão à cata de um sentido para seu destino.

A figura no centro da tela, o adolescente quase nu, tem aproximadamente a idade de Rimbaud quando escreveu Une Saison en Enfer. Ele volta o olhar para a esquerda, na direção do irmão mais novo, que está logo abaixo de seu cotovelo erguido, e que, no entanto, ele não vê. Como Rimbaud em Une Saison, o adolescente de Picasso olha para o passado, para a mãe e para a infância, enquanto a seu lado, na direção oposta, jazem os símbolos de seu futuro: o jovem adulto e o velho. Um amor pela vasta liberdade do espírito o solicita. Ele é, portanto, como Rimbaud também o fora, o anjo.

O anjo em seu novo sentido, criado pelo artista contemporâneo: aquele que em sua vida lida mais com o invisível do que com o visível. É Rimbaud acreditando-se fora deste mundo. É o jovem tocador de tambor semidespido de Picasso, voltando o olhar para todas as hostes invisíveis do cosmos. As fugas de Rimbaud são comparáveis às intermináveis andanças dos saltimbancos de vilarejo em vilarejo, e semelhantes às cambalhotas e aos gestos delirantes de suas apresentações.

Fowlie publicou em 1966 a tradução para o inglês dos poemas de Rimbaud. O francês difícil do poeta exigiu que Fowlie fosse buscar ajuda sobre a tradução de certas palavras. Encontrou-se com Henri Matarasso, colecionador de cartas e manuscritos relacionados ao poeta, em fins 1965 e este lhe disse que Picasso esteve por lá no dia anteior e que fizera um desenho de Rimbaud após o pedido do colecionador. “Sim, é claro, dê-me uma fotografia”, disse o pintor.

Matarasso lhe deu uma pequena fotografia de Rimbaud aos dezesseis anos. Picasso tomou a fotografia com a mão esquerda e, com a direita, segurou, de encontro à parede, uma folha em branco. Em dois minutos, segundo Matarasso, depois de desbastar a ponta do lápis no lado direito da folha, Picasso fez o esboço. Ele se serviu da fotografia mas fez mudanças no rosto. O Rimbaud de Picasso é de uma juventude mais vigorosa, e seu cabelo assumiu o aspecto dos punks atuais.

Rimbaud, de Picasso

Matarasso cedeu o desenho de Picasso para Fowlie que o utilizou como capa de seu livro. Entre 1967 e 1969, recebeu algumas poucas cartas sobre a tradução. Uma delas, bastante curta, era assinada por Jim Morrison. Em 1968 Fowlie não conhecia tal nome e decidiu perguntar se seus alunos o conheciam: ficaram todos chocados pelo fato do professor não conhecer o The Doors. Fowlie, então, leu a carta para eles:

Caro Wallace Fowlie,

Só queria agradecer por você ter feito a tradução de Rimbaud. Eu precisava dela porque não leio tão bem o francês… Sou cantor de rock e seu livro me acompanha nas turnês.

PS: Aquele desenho de Rimbaud na capa feito por Picasso é fantástico.

Fowlie conta como se interessou por Jim e começou a dar seminários sobre os dois “poetas rebeldes”, e de onde surgiu, também, a idéia de escrever um livro sobre a vida, obra e mitos de ambos.

Enfim, é uma boa leitura.

Escrito por B.Cardoso

07/10/2007 às 17:41

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